Em outra vida 4


Encontrei duas pessoas ex conhecidas no shopping. Dessas que a gente manteve contato em outra vida, quando tinha outros sonhos e outros gostos, mas hoje são completas estranhas. Fingi que não as reconheci, mas eu sei que elas me reconheceram. Do mesmo jeito que elas sabem que eu também.

Tive vontade de chorar, não é exagero. Foi real. As lágrimas vieram mesmo, dando nó na garganta.Em outra vida eu era bonita, me preocupava com meu cabelo e com a minha roupa. Hoje eu estava de chinelas, cabelo oleoso em um coque e uma roupa sofrível. Sem contar que hoje eu tenho o dobro do peso que já tive.

Tenho consciência que me ver hoje deve chocar quem me conheceu antes. Ainda me assusto quando me dou conta do tanto que mudei. E ás vezes minha auto estima vai para abaixo de zero fazendo com que meu reflexo no espelho acredite quando me falam que “preciso me cuidar”. É impossível você não ouvir tantas vezes que ser gorda é errado, ouvir piadas, ver suas amigas sempre abominando a ideia de engordarem um pouquinho e não deixar isso entrar na sua cabeça. Todos nós temos momentos de sensibilidade extrema, quando os pensamentos ruins fazem morada. Eu não sou diferente.

Engoli o choro. Elas foram embora.

Deu vontade de chamar elas de volta, sabe? Ei, vocês, voltem aqui! Hoje eu tô feia e desarrumada, mas minha vida é melhor do antes, sabia?! Eu tenho bons e velhos amigos, minha casa, meu marido minha gata e minha cachorra. Hoje entendo melhor os meus pais, estou mais madura e faço uma faculdade que adoro. Não vomito mais depois de comer com medo de engordar, não namoro mais homens babacas que me colocam pra baixo e nem penso mais em suicídio. Legal né?!

Aí me toquei que elas não se importariam. Quem se importa? Ninguém quer saber como você está por dentro, se é mais fácil de chamar de gorda desleixada. Vida que segue.


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