As dores e as delícias de ser feminista


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Ilustra da Kathrin

Sou do tipo de pessoa que não consegue ser passiva em relação ao que me cerca, e eu já tentei. Sei que não posso consertar o mundo, mas esse pedaço aqui que me cabe não vai passar por mim intacto. Nem sempre fui feminista, na verdade já houve um pedaço da minha vida em que eu reproduzia cada barbaridade que hoje me dá vergonha. Tento pensar que a culpa não é minha, assim como não é culpa de quem passa a vida aprendendo que o certo são dogmas machistas tão enraizados na sociedade.

Porém, ser feminista faz parte do que eu sou hoje. Apesar de inevitavelmente ainda reproduzir algumas merdas, eu procuro sempre agir todos os dias de acordo com o que eu acredito. E o que eu acredito é que nós mulheres precisamos sim nos unir, que fomos covardemente adestradas para competir umas com as outras. Acredito que a cultura do estupro está aí agindo contra todas nós, que uma mulher precisa lutar muito mais para ser tão reconhecida quanto um homem. Se for mulher negra então, nem se fala.

Embora todas essas coisas sejam parte do que eu sou já faz tempo, e consequentemente parte de como eu ajo todos os dias, eu procuro não impor isso para quem me cerca. Chamo atenção quando o machismo grita, se possível com bom humor. Mas não sou dessas que tenta dar aulas de feminismo para que não está disposta a ouvir porque eu acredito que esse não é o caminho para abrir os olhos de ninguém. Acho que o melhor que eu posso fazer é puxar para a razão nas pequenas coisas, nas conversas cotidianas, na forma que eu lido com as coisas, nos exemplos e conselhos. E se não basta, infelizmente, não posso obrigar ninguém a nada muito embora ás vezes eu tenha vontade pra caramba.

O lance é que isso se torna uma luta pessoal, da hora que eu acordo a hora que eu durmo, então é impossível não me atingir em nível pessoal também. É meu coração que dói quando vejo uma mulher que eu gosto reproduzindo falas que considero absurdas ou se submetendo a relacionamentos abusivos sem perceber que aquilo é uma furada. Principalmente se são mulheres novas, com acesso a todo tipo de informação. Eu faço tanto para estender a minha mão para quantas mulheres eu posso, e não consigo ajudar aquela que tá pertinho. Aquela que abaixa a cabeça para o namorado e acha que é legal julgar outras mulheres  pelos seus corpos ou roupas que elas usam. Isso é paralisante e me dá uma sensação de impotência devastadora.

Como mudar meu pedacinho de mundo se não consigo tirar  do limbo machista alguém que caminha comigo praticamente todos os dias?

Mas aí alguém que não vejo a anos, que troquei poucas palavras na vida, me agradece pelo o que eu digo on-line. Que aquilo a ajudou de alguma forma a sair do tal limbo, a se ver feminista, a se juntar a dar a mão para as outras mulheres também. Aí ascende uma brasinha aqui, aquece de novo a minha vontade de fazer minha parte.

Então sigo em frente, lutando pelo o que acredito, porque isso faz parte do que eu sou. E, felizmente, isso não dá para mudar.

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